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Pornoterrorizando com Marvel Nessa

sexta-feira, 21 de março de 2014.
Ave Butler! Hail Derrida!

TEXTO QUE ESCREVI COM UMA AMIGA, PERFORMER PORNOTERRORISTA, A MARVEL NESSA (QUE NA VERDADE FEZ UMA TRADUÇÃO DO PREFÁCIO DO LIVRO "PORNOTERRORISMO" DE DIANA J. TORRES), PRA SER APRESENTADO COMO RESPOSTA E EXPLICAÇÃO DO ATO ULTRA-POLÊMICO NA JMJ- O TEMA MAIS POLÊMICO DO ANO DE 2013, ALIáS-, MAS QUE ACABEI DEVENDO PROS LEITORES:

Sobre Pornoterrorismo (por Erzulie Medusa Byron)


As reações e o mal-estar causado pela polêmica performance na ultima Marcha das Vadias de Copacabana, levada à cabo pelo Coletivo Coyote, nos colocaram a necessidade de fazer alguns apontamentos importantes. Não importa de formas contra ou à favor, o importante é que este julgamento deve ser minimamente embasado.

O que chamamos de Porno-Terrorismo s nada mais é do que uma vertente mais politizada e violenta do pós-pornô, que busca propiciar reflexões sobre gênero, sexualidade, Estado, opressões etc... a partir da lógica do "tratamento de choque", mostrando à sociedade heteronormativa aquilo que ela não deseja ver, que prefer jogar para baixo da tapete- nossos tabus e eneuroses. Neste sentido, este tipo de ato artístico-político tem a mesma função das fotografias chocantes de crianças esfomeadas  da Africa ou das cidades, porém considerando não a fome física, de ordem econômica, mas a repressão dos corpos e da sexualidade.

Mas o que é pós-pornô? 

Muito confundido, inclusive em meios feministas da esquerda, com pornografia "machista e vulgar", trata-se de uma tentativa de quebra de paradigmas do modelo de sexualidade dominante, “pai-mamãe". De fato é uma critica bastante recorrente e acertada de que a pornografia tradicional é machista, falocêntrica e desvaloriza a sexualidade das mulheres. 

O modelo usual de pornografia segue uma lógica fixa, um script presumível: começa com uma estorinha (na maioria das vezes não tem e quando tem, mostra a mulher como uma "presa fácil e bobinha" destituída de  libido e de vontade), passa-se à felação, ao sexo vaginal e anal e termina num "gran-finalle", a ejaculação masculina. Com pouquíssimas variações. Não precisa dizer que este modelo é heteronormativo, pois entende o ato sexual como mera penetração. Mesmo quando se resume a penetração oral, com a presença de travestis, masturbação, carícias entre mulheres lésbicas, os mesmo elementos normativos estão presentes, para empoderamento e deleite exclusivo do macho, sendo este o grande consumidor desse filão.

Jà o pós-pornô se propõe, enquanto vertente de arte performática, usar os corpos para destruir esta lógica. Se utiliza de elementos e sensações praticamente desconhecidos pela industria pornô, sejam eles o uso de sons e música  "exótica", uso e ressignificação de objetos- como no caso em questão de crucifixos e imagens,  É visceralmente politica e feminista porque  busca desconstruir o sexo enquanto construção de relações desiguais de poder- e não falamos somente de pornografia comercial já que o sexo é onipresente nas relações sociais. Nossos corpos e desejos se tornam o campo de batalha, de repressão e libertação.


Assim, a perfomance polêmica da Marcha das vadias pode ser entendida sobre multiplos ponto-de-vista. Como arte seria a ressignificação de um tema religioso para apresentar uma mensagem que o extrapola. Façanha parecida foi feita numa versão da Santa Ceia com travestis, e as inúmeras versões polêmicas da Paixão de Cristo produzidas por Hollywwod. Como manifesto político, o icone religioso se transforma nas correntes que prendem o oprimido, candeia que precisam ser quebradas. Representa a repressão sexual imposta pela Igreja por séculos e paralelamente, um retorno ao sagrado feminino vilipendiado e amordaçado.O problema não é a imagem e sim o sexo.





(parte da Nessa):


Marvel Nessa <3
A Performance, enquanto arte, evidenciou-se nas décadas de 1960 e 70, apesar de já haverem algumas manifestações anteriores, decretando o corpo como suporte da obra de arte. Porém, o corpo não é apenas matéria-prima reduzida à exploração de suas capacidades (exaltação de suas qualidades plásticas, medição de sua resistência e energia, desvelamento de seus pudores, inibições sexuais e perversões, seus poderes gestuais, etc), há a incorporação de aspectos sociais e individuais, vinculados a transfomação do artista na sua própria obra, ou seja, em sujeito e objeto de sua arte. A cultura nos leva a naturalizar comportamentos, gestos, seqüências de ações; a performances trabalha com a ausência de cristalização, ela particulariza o corpo como algo em potencial, em que a partir do imprevisto o simples adquire inúmeras possibilidades. Frente a um público que vive a ficção de seu próprio corpo, construída por rituais sociais estabelecidos, o artista apresenta em oposição um corpo que é prazer, sofrimento,dor e que a morte se inscreve. Dessa forma, ela perturba, rejeita, nega os velhos valores estéticos e morais, produzindo um estranhamento com imagens prévias de si próprio. Assim, através da transgressão, da mutilação, do onanismo, da escatologia, da degradação moral e da quebra de tabus, são realizadas denúncias, críticas e retira-se o espectador de um estado de indiferença e passividade. Busca-se, assim, despertar a consciência do público, retirando-o do ostracismo, através de uma experiência coletiva em que todos estão expostos ao golpe, pois ali o corpo é o denunciador de uma ferida coletiva, ferida esta portadora de uma metáfora do corpo.
Nestas ações o corpo ocupa todos os lugares, este não é a sua arte, é antes a sua linguagem. Expõe-nos um corpo aberto revelador de um sofrimento, é o testemunho de uma identidade, da experiência perceptiva, de certo modo social, é um corpo que expõe, denuncia e faz falar os mais íntimos segredos individuais e coletivos. Mas é precisamente por isso que o corpo exposto se torna estranho: por ser carnal, biológico, humano e, não um corpo idealizado pela perfeição. Não devido a uma artificialização ostensiva ou à sua comunhão perfeita com a técnica, e nem à intervenção de algum misterioso agente extra-mundano, mas é justamente por ser de carne e osso que ele se torna medonho. Porque é um conjunto de vísceras que incrivelmente vivem, pensam e sentem. E isso, por si só, serve para provocar um sentimento de estranheza com relação ao que somos: uma desnaturalização da nossa corporeidade em sua brutal condição anatômica, pateticamente finita e incompreensível.
O Pornoterrorismo - de Porné (em grego, Prostitua pobre ou escrava) e Terrorismo (Sucessão de atos de violência executados para infundir o terror) é, herdeiro desse viés artístico embora em seu manifesto se coloque enquanto anti-arte.
Diana J.Torres
“E como anti-arte, como arma de ação direta, como ritual mágico de encantamento, como exorcismo público, como máquina de guerra contra o aparato de captura da norma social hetero, como potência visual - contra/semiosis - o PornoTerrorismo é um modo de, um como construir um novo uso dos prazeres e reprogramar nossos desejos, um como engendrar as novas paixões alegres que acrescentem às nossas riquezas corporais, nossas potências imanentes, um como destruir as máquinas de fabricação dos gêneros e assim gerar uma contraprodutividade desde o prazer-saber.” (Manifesto Pornoterrorista Ludditas Sexuales)
“O pornoterrorismo é ação e conceito. As ações requerem experiências para nos empoderar, enquanto os conceitos projetam seu significado no tempo abrindo a possibilidade de que, em algum momento, se questione sua aplicação, permitindo ou levando a outro contexto. E ai reside seu potencial. [...] O pornoterrorismo nos recorda nossa materialidade, nossa animalidade, nossa brutalidade e, sobretudo, nossa sexualidade, nosso desejo. Mais ainda: nos diz que tudo isso que cremos como nosso, é território colonizado, e que é nossa responsabilidade expulsar o inimigo invasor. Ninguém virá nos salvar. O pornoterrorismo tampouco. Mas que se atreva o tempo duro a desafiar o infinito de uma vagina e um bom gel. [...] A História já nos demonstrou que a revolução é algo além de barricadas ardentes, encarceramentos massivos e hordas enfurecidas. Nesses tempos que vivemos, não há outra possibilidade de mudança radical que as pequenas ações que cumprem com o princípio da teoria do caos. E se o bater das asas de uma borboleta pode causar um tsunami no outro lado do mundo, me regozijo de prazer e esperança ao pensar o que pode ocasionar uma orgia sobre os cenários do mundo.” (tradução livre minha) -

( Diana J. Torres, no prefácio de "Pornoterrorismo)

Praquem se interessou e quer saber mais: http://pornoterrorismo.com/   

La Violinista [Trailer] from Quimera Rosa on Vimeo.

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O gênero "revolucionário" e a macheza institucional (2ª parte)

sexta-feira, 7 de março de 2014.
Ave Butler! Hail Derrida!

Segunda parte de uma série de duas postagens especiais em anti-comemoração do 8 de Março-Dia Internacional da Mulher "Trabalhadora" (como se não o fossemos todxs), explicando por que não construo essa data reacionária:

(continuando...)

Então qual seria a solução? Como fazer mudanças profundas na sociedade sem empoderar este tipo de discurso? Qual a tática mais apropriada? Eu vejo duas opções que não são contrárias, nem inter-excludentes, pelo contrário, podem até se juntar numa tática só: pacifismo e redefinição/desvirilização da violência. Isso sim é revolucionário por que quebra com paradigmas muito bem calcados na mente das pessoas. Porque não seguimos o exemplo de Mahatma Ghandhi e fazemos greves de fome silenciosas na frente das prefeituras e marcos de nossas cidades? Garanto que seria bem mais construtivo que continuarmos quebrando coisas dos outros, que pertencem à comunidade, chamaria mais atenção da mídia e apoio da sociedade. E se a policia vier nos bater ou dar voz de prisão, sigamos o exemplo do Cabo Daciollo, militante que se destacara na greve dos bombeiros em 2011, apanhemos calados em frente das câmeras, pois como diz o ditado “quem parte para a ignorância, perde a razão”. A violência viril é monopólio do Estado e da policia (cuja truculência é a única razão de existir). O monopólio da razão pertence aos oprimidos, explorados e excluídos.
                                                      
Vieram me mostrar até (quem diria...) o Levante de Stonewall, aquela defesa do "vicio burguês do homossexualismo" como um exemplo de como a violência pode ser um meio útil de alcançar vitórias políticas. Concordo em parte, pois este episódio também é um belo exemplo de como a idéia varonil de “violência justa” pregada pela esquerda radical pode e deve ser desmontada. Stonewall foi um marco singular, exatamente porque se propôs a romper com uma das mais duras e profundas estruturas sociais, a opressão de gênero, a subalternização do feminino. E pela tática de empoderamento e reprocessamento dos xingamentos à que aquela população se expunha cotidianamente, pela “guerrilha da linguagem”, podemos afirmar que foi a primeira Revolução ”Queer” da história. Houve bombas caseiras e barricadas, mas aprendemos a usar armas mais potentes chamadas “perucas”, “batom” e “salto alto”. 

Enquanto  noutros eventos se usava e ainda se usa de imprecações desrespeitosas para com as minorias sexuais e as mulheres, as bichas do Village desfilavam de forma exuberante na frente da polícia, cantando "I Will Survive" “Somos as Bonecas de Stonewall”. De modo algum fora um episódio classista, porque, apesar de toda uma diversidade política presente, a motivação, o ensejo, coesão e coerência às manifestações fora a busca pelo direito à consumir num bar. Dizer que Stonewall foi um evento classista é tão surreal quanto afirmar que os atuais "rolezinhos" são anti-capitalistas. Stonewall pareceu mais um levante “pró-pink-money” que uma revolução bolchevique- aliás, segundo um dos remanescentes, “que terminou antes de acabar”. Discordo, o espírito pacifista de Stonewall esteve presente ás mobilizações de 2013, alias foi o responsável pelos poucos avanços que tivemos nas consciências. Sobre O Junho de 69 teremos um artigo bem caprichado mais além, por ora evidencio que não foi nada ligeiramente parecido com aquilo que a esquerda revisionista aponta.
"Virilidade revolucionária? Me poupe"

Para se ter uma idéia do nível de virilismo e dominação masculina imposto pelo processo revolucionário, basta erguer os ouvidos à frases "inspirativas" tais como "a revolução só será feita com saaaangueee!". Mais testosterona do que sangue, digo eu, com sangue de gente inocente, porque a história demonstra que os mais radicais sempre se escondem nas suas casamatas quando a violência explode. Um indivíduo acaba de me "informar" que não haviam cartazes nem panfletos durante a Revolução Francesa (oi?!). Pelo contrário, a invasão das Tulherias nada mais foi que um levante muito mal organizado, sem o menor cuidado de raciocinar a conjuntura (vulgo "porralouquice juvenil"), que veio a coroar séculos de iluminismo.E que só deu certo, só mudou alguma coisa militarmente, devido ao fator-surpresa: o rei perplexo e assustado resolveu fugir de Paris ao invés de mandar as tropas aniquilarem os revoltosos, o que seria feito muito facilmente. Eu leio isto no Facebook ouvindo a Marselhesa de fundo só pra demonstrar que não houve nenhuma produção cultural no evento que não se resumisse à sangue e virilidade...

Revolução (a genuína) nada mais é que mudança de paradigmas, um momento no qual as pessoas deixam
de pensar de um maneira para pensar de outra. Ora, quando um PSEUDO-revolucionário parte para a "ação direta", fechando qualquer espaço de debate e construção coletiva, vira as costas para a classe que diz defender e para as minorias que diz respeitar. Ignora que suas atitudes negam o caráter salvífico das idéias livres. Seu autoritarismo viril nega-lhe o direito de se autodenominar "revolucionário", pois sua atitude, no tocante ao gênero é extremamente conservadora. Empodera-se à quem já tem poder. Toda forma de violência viril é patriarcal. É através da demonstração de atos de virilidade e bravura que o menino aprende desde cedo a ser homem, a oprimir os mais fracos, a comandar as mulheres. Uma revolução para ser feminista precisa antes de tudo ser pacifista, ou ao menos romper com a ideia de "violência justa" pregada pela Esquerda Revolucionária- ou seja, pelos homens viris que sempre estiveram no Poder. ISTO, destruir a cultura da virilidade, é luta real contra o tal machismo.

(Enterro de militante sírio. Aonde está o Wally? Aonde estão as mulheres?)


Diferentemente do um professor que certa vez me explicara em sala de aula que, para o revolucionário de esquerda não há sexo nem gênero, por que todos seriam iguais nas tarefas, replico que sim, o revolucionário tem gênero: o gênero troglodita. Tanto é assim que as mulheres são estimuladas a fazerem os mesmos trabalhos que os homens (em teoria) e apresentar o mesmo padrão de performance, usar as mesmas armas, etc..., mas nunca o homem é estimulado a fazer os serviços ditos "femininos". Nunca a luta pacifista é incentivada, justamente por ser coisa de "mulherzinha". Quando em muito se fala na justíssima "divisão do trabalho doméstico", deixando transparecer que para o discurso esquerdista o trabalho culturalmente delineado como feminino é inferior  e desimportante, um fardo desnecessário que deve ser dividido entre todos, ao invés de uma nobre ocupação sem a qual a vida em sociedade torna-se inviável. Aliás tem organização que até hoje discute se é legítimo ou não uma mãe zelosa lavar a camiseta vermelha do filho enquanto ele está na rua enfrentando a policia.Tudo em nome da noção de "progresso" imposto pelo homem branco e barbudo marxista/anarquista.

"sangueee..."
Evidente que não se pode generalizar, no sentido que não existe um homem e uma mulher universal. Também não se pode resumir a biografia de ícones da esquerda como Che, Trotsky e Phroudon à violência contra os "gêneros mais fracos". São símbolos legítimos de esperança para aqueles que os seguem, porém o que se vê e o que se denuncia é que no quesito "relações de gênero" a política revolucionária é historicamente a mais desastrosa, tanto no discurso, quanto na práxis. O foco principal, senão o único da agenda, é a universalização da cultura da macheza, já que os machões não querem abrir mão de seus privilégios. Numa batalha campal entre a juventude da esquerda e a "burguesia", não importa que lado saia derrotado, o discurso virilista sempre sairá vitorioso.. E tal práxis não é nada subversiva, pois (re)condiciona didaticamente a juventude a seguir o mesmo modelo de comportamento sexista tão criticado na sociedade judaico-cristã, homens na frente de batalha, mulheres e minorias brandindo bandeirinhas vermelhas atrás. Considerando as táticas e performances dentro da lógica didática, o partido/coletivo não passa de uma "concessão" social, introduzida pela sociedade cis/heteronormativa e que teria como objetivo formar uma juventude machista e virilista. Como as esquerdas almejam fazer luta contra o machismo, se suas práticas de luta, suas virtudes se baseiam no que há de mais violentamente sexista que são os exércitos e a luta armada?

Um amigo meu, marxista, disse que "precisamos de mulheres na revolução". Discordo, o que os revolucionário precisam urgentemente é do FEMININO na sua práxis. Talvez se prestassem mais atenção às falas das bichas afetadas, aprendessem algo além de repetir a heteronorma como papagaios. Seja como for, me parece uma luz no fim do túnel. Espero que não seja mais uma vez o trem do sexismo vindo em nossa direção.


*Sobre a participação das mulheres na revolução Francesa, encontrei um artigo bem didático e acessível feito pelo Deptº de História da UFF (autoria não assinalada): http://www.historia.uff.br/nec/sites/default/files/A_mulher_e_a_revolucao_fran

=> Leia a 1ª parte: http://covildamedusa.blogspot.com.br/2014/03/o-genero-revolucionario-e-macheza.html

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O gênero "revolucionário" e a macheza institucional. (1ª parte)

Ave Butler! Hail Derrida!

Primeira parte de uma série de duas postagens especiais em anti-comemoração do 8 de Março-Dia Internacional da Mulher "Trabalhadora" (como se não o fossemos todxs), explicando por que não construo essa data reacionária:

           "Nós somos as netas da bruxas queimadas nas fogueiras da Inquisição. Mentirinha, aquelas eram nossas tataravós. Nós somos as netas das revolucionárias mortas e estupradas por seus companheiros atrás das barricadas"
          "Os black blocs estão para os movimentos sociais e para a esquerda, assim como o FEMEN está para os movimentos feministas. Por que razão ainda não escurraçaram os primeiros como fizeram com os segundos? Seria por causa da defesa intransigente do machismo revolucionário?"

*Em memória do cinegrafista Santiago Ilídio Andrade, assassinado enquanto cobria embate entre PMs e manifestantes bandidos no Rio de Janeiro. Mais uma vítima do machismo revolucionário.(Bob Fernandes comenta o caso: https://www.youtube.com/watch?v=LPDGmpdKnKQe)


Delacroix; "A Liberdade guiando o povo"


 Estou uma pilha com o macho-ismo e o virilismo na esquerda auto-proclamada revolucionária. E é disso que falarei nesse artigo, alias sobre isso desabafarei. Falo enquanto pessoa oprimida que apanhava e era colocada de castigo pelo pai, por andar desmunhecando, falo enquanto menino que levava sova dos colegas na escola e era motivo de piadas por parte das meninas.Tenho militado a 7 anos junto ao movimento LGBT e aos militante da esquerda brasileira, já fiz parte de um partido, uma sigla bastante conhecida no meio político, já tive contato com gente de outros partidos, e de coletivos anarquistas. A maioria dessas pessoas são exemplares militantes e amigos excelentes, porém devemos admitir que as violências de gênero, machismo e LGBTfobia (sendo esta uma versão mais elaborada do machismo)prolifera nos coletivos e partidos. A minha explicação para isso, e vou defende-la, é simples, direta, honesta: a macheza (comportamento que gera e nutre o machismo e o virilismo)  é inerente à ideologia revolucionária, não há revolução, na sua ascepção mais comum, sem virilismo. Minha posição atual, é que enquanto houver opressões a Revolução será impossível, com o fim delas, a Revolução será desnecessária.

Vou na direção contrária à de certos discursos que tenho ouvido/lido pela internet, como o de Cecília Toledo e Heleieth Saffioti, para quem  (baseado no panfleto de Evelyn Reed, provavelmente) a luta das mulheres seria uma luta de classes contra a burguesia e não uma organização mundial baseada no marcador que separaria e gera uma opressão específica, o gênero , em especial quando entendido como uma divisão biologicista, essencialista e dicotômica, discurso inventado e sustentado até hoje (e aqui a grande ironia) por cientificistas "burgueses", marxistas e anarquistas.  Utiliza-se da embotada estratégia de jogar o oprimido contra um inimigo em comum, exterior, enquanto se beneficiam da "Luta de classes" para sabotar a "auto-organização" de mulheres e minorias sexuais contra seu inimigo histórico: a virilidade compulsória, geradora da relação desigual de poder. 

Se as esquerdas estivessem realmente preocupadas com a reprodução do machismo nas suas fileiras, se uniriam às mulheres e bichas burguesas para derrotar o sexismo no interior de suas organizações, reunificariam a classe trabalhadora (cuja divisão supostamente ensejada pelas opressões vivem denunciando) e só depois, com a classe reorganizada, pensariam numa revolução proletária. Mas preferem botar o carro na frente dos bois, pois como afirma a mesma Saffiotti e suas seguidoras, a discussão vital das relações de gênero é inacessessível as mulheres proletárias (mais fácil discutir mais-valia e ler O Capital, suponho) As marxistas dizem "o gênero nos une, a classe nos divide", ao que respondo, com certa base na literatura pós-feminista que sigo, "o gênero nos oprime, o classismo nos divide". Ou pelo menos assim tem sido, infelizmente. Lá insistem em falar que o problema da opressão de mulher e das minorias sexuais é de classe, aqui respondo que é puramente de performance, de comportamento, de cultura. Lá estudam e pensam a respeito da "classe mulher", aqui inverterei o discurso e me referirei, já desde o título, ao "gênero revolucionário". Lá se fala em "machismo", por aqui inaugurarei o conceito de "virilismo"


Pintura de Giuseppe Pellizza da Volpedo, intitulada "O quarto poder'', 1901. "Quem não milita, segura a criança"



Por virilismo entendo a reiteração, a legitimação do poder masculino- e nunca "do homem", frise-se, da idéia de que o macho viril é superior (indiferente de seu sexo), portanto a ele cabe o poder e a supremacia na sociedade patriarcal. Tal poder não tem de modo algum origem na propriedade privada, pois já existia dominação de um grupo sobre o outro, muito antes do surgimento e independentemente desta- aliás, em alguns momentos da história, como na XVIII Dinastia egípcia, mesmo com o acumulo de tesouros, tivemos amostras de poder feminino e não podemos nos esquecer que na época de Marx e Engels uma bio-mulher dominava simbolicamente a Inglaterra. O virilismo não tem nenhuma ligação direta com a burguesia, é uma ideologia que perpassa todas as classes sociais, todos os gêneros, raças e culturas.

França, 1789: a velha luta pela supremacia masculina?
Uma vez definido o que entendo por “virilismo”. Voltemos a questão revolucionária. Em nenhuma revolução históricamente notável se viu a participação massiva de mulheres e minorias sexuais, a não ser no papel de vitimas e perseguidas. Na Revolução Francesa, os próprios revolucionários fizeram questão de apagar dos anais a participação feminina. Com excessão de Charlotte Corday, a mínima participação delas não aparece, embora esse assunto esteja sendo agora retomado por pesquisadoras, que teriam encontrado indícios de participação feminina rechaçada no inicio do movimento. Já nas listas das cabeças guilhotinadas...

 Como o modelo dicotômico cientificista que separa os sexos/gêneros até hoje não existia àquela altura é possível afirmar com certa segurança que não havia entre as pessoas diferenciação acentuada, muito pelo contrário, excetuando a ênfase na maternidade (devidamente reproduzida por bastiões da esquerda como Engels e Kollontai, quando continuam empunhado a bandeira reacionária e sexista por "creches"), o lugar de homens e mulheres na sociedade feudal era idêntico, e praticamente não havia divisão sexual do trabalho. Com excessão dos subversivos, os "queer" da época que não se incluíam em nenhum dos gêneros, como as bruxas e os hereges, o que havia era uma perfeita simetria intercomplementar, uma harmonia entre os gêneros que os revolucionários da esquerda contemporânea sequer imaginam como replicar.  Tal divisão sexuada do trabalho surge com toda força no começo da Era das Revoluções, ou seja, diferentemente do que afirma Regina Navarro (O Livro do Amor) o tão falado modelo patriarcal não acabou com a Revolução Francesa e sim começou com ela. A mais conhecida alusão à figura feminina nas artes esta numa pintura de Delacroix, que representa a Revolução como um mulher com os seios desnudos, representando alegoricamente o lugar da mulher no processo revolucionário, enquanto mãe que nutre os seus filhos.

Na Revolução Russa, idem, muito embora feministas revisionistas jurem de pé junto (geralmente se baseando em autores virilistas como Lenin e Trotsky) que o movimento se iniciou como uma greve de mulheres. Mas é fato reconhecido que as posições de poder, a cúpula coube sempre aos homens viris. Em Cuba, além das mulheres aparecerem bem pouco, ainda os lideres, em especial Ernesto “Che” Guevara ( o protótipo do machão revolucionário latino-americano) obrigava-as  à praticar aborto contra a própria vontade e mandava os maricón à morte por extenuação no cargo mais estafante da ilha:cortar cana de sol-a-sol- exatamente como a burguesia vitoriana inglesa teria feito algumas décadas antes com Oscar Wilde. O argumento, conforme apresentado pelo próprio Che (adivinhem...) era que a pederastia manchava a imagem do homem ideal revolucionário- aliás, a mesma tese defendida por Engels em A Origem da Familia (1860), quando acusara a pederastia dos homens pela opressão das mulheres na Grécia Clássica. Mas a esquerda radical brasileira idolatra-os, veste camiseta com suas efígies, inclusive para ir a atos contra o machismo e homofobia. Irônico, para não dizer patético.

Leila Khaled, diva
Recentemente, uma organização me convidara a assistir uma palestra sobre a atual “Revolução Feminista” na Siria, que fora apresentada por uma militante vinda de lá. Como ela mesma dissera, as mulheres têm tido um papel importante no processo cobrindo os conflitos e fazendo reportagens e filmes no front. Estranho que no filme que ela mostrara durante a palestra, à certa altura mostra-se uma suposta assembléia do exército rebelde que acabara de tomar uma cidade, mas não reconheci no filme nenhuma mulher/minoria sexual numa posição de poder, discutindo e votando as decisões. Aliás, uma série estúpida de conflitos que já vitimizou mais de 100.000 cidadãos só por causa da teimosia (leia-se “machismo”) de rebeldes que ainda não entenderam que a Guerra Civil foi perdida, não conseguiram angariar o apoio da ONU e da comunidade internacional e estão rebatendo as bombas de caças do ditador Bashar al-Assad com “estilingues” e muita testosterona. Apóio e acho justíssima a bandeira pela queda daquele ditador sanguinolento, títere do imperialismo ianque, mas a falta de bom-senso é generalizada e mata.

Enquanto isso, os revolucionários "feministas" sírios apedrejam garota até a morte pelo crime hediondo de  fazer uso do Facebook: http://daily.bhaskar.com/article/WOR-syrian-girl-stoned-to-death-for-using-facebook-account-4521918-NOR.html


Virou moda em alguns espaços revolucionários mostrar mulheres armadas com fuzis e metralhadoras. Não há novidade nisso, na década de 1960 já tinham estampado nos jornais e revistas a bela figura da hjacker  (“seqüestradora de avião”) e uma de minhas heroínas favoritas do século XX, Leila Khaled. Mas conceder lugar de fala, poder e decisão às mulheres, já é vandalismo. Pelo contrário, por nossas paragens há quem critique o governo Dilma, como a prova de que a tese do “empoderamento” (feminino) não funciona. “Mulher no volante, perigo constante. Na frente do Estado, perigo dobrado”. O mais bacana é que não funciona mesmo, pois, como tenho defendido, nada importa o que x governante tem no meio das pernas. O problema é a forma máscula, violenta, excessivamente objetiva e fria como sempre entendemos e tratamos a política no Ocidente.


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Você namoraria umx monstrx? (Dia da Visibilidade Trans*)

terça-feira, 28 de janeiro de 2014.
Ave Butler! Hail Derrida!

Texto que escrevo com todo carinho e sentimento por ocasião do Dia da Visibilidade Trans* (29 de janeiro) e como parte "extra" da blogagem coletiva nos sites feministas, LGBT's e aliados, mesmo na correria, achando que não o terminaria a tempo, espero que seja bastante útil. Sobre o tema e a abordagem, acredito que não seja nada pioneiro. Lembro-me de ter lido algo parecido em algum artigo acadêmico, cujo titulo acabou por se perder na memória. Escrevo, ou melhor desabafo, trazendo à tona uma série de sentimentos e de vivências pessoais, partindo do pressuposto de que o pessoal é político. Mas não falo daquela política que se faz nas ruas, nos espaços formais de militância e sim das lutas e das batalhas titânicas que acontecem todos os dias dentro da gente. Falarei com o coração sobre um tema que venho ensaiando à anos para escrever neste espaço e que acho que tenho maturidade e coragem para escrever.e espero que me leiam com o coração. E serei um pouquinho irônica tá?

Acabo de re-assistir à edição de 25º Aniversário  de O Fantasma da Ópera (Andrew Lloyd Webber), musical que sempre me emociona . Aliás, conheço todas as musicas de cor. E chorei de novo igual um bezerro desmamado, por me identificar muito com a sina de violência e desamor vivida pelo personagem-titulo. Não posso deixar de fazer paralelos entre a vida afetiva da maioria das pessoas trans*  (ou não-dicotômicas/não-identificadas), com a larga produção cultural em torno dos livros e filmes românticos do horror gótico. Se a vida desses pessoas se resume a provar aos outros que somos seres humanos, não me parece nenhum exagero tal comparação. Quem leu ou assistiu aos filmes  Edwards Mãos-de-Tesouras, Corcunda de Notredame, Drácula e Fantasma da Ópera já consegue se adiantar e entender a que estou me referindo. Não se trata de "vitimismos", mas de fazer as devidas comparações, aproveitar a metáfora dessas obras para debater a vida afetiva de quem é "diferente".

De uma maneira geral, todas essas obras, a maioria surgida como novela ou folhetim no século XIX ou começo do XX, segue uma mesma estrutura- até pra facilitar o diálogo com seu publico: a mocinha  se apaixona perdidamente pelo galã viril, depois à certa altura ela tromba com ums monstrx deformadx que se apaixona por ela, o galã que até então era o mocinho da história mostra-se um bandido ciumento e inescrupuloso (as vezes tem um terceiro personagem que faz esse papel, para tornar a trama mais complexa), x monstrx mata o mocinho para proteger sua amada e por ultimo a turba dos moradores da cidade se revolta pela morte do galã acima de qualquer suspeita e mata/expulsa x monstrx. 

Dai começaremos nossas críticas, nossa relação entre estas estórias e as narrativas afetivas das pessoas trans*. X monstrx é sempre assexual, elx pode até causar desejo, mas é com o mocinho que se espera que a mocinha fique no final e viva feliz para sempre. Indo mais além, x monstrx é sempre incapaz de amar e de sentir desejo. Perdi as contas de quantas vezes já me declarei para meninas (sou lésbica) e resultado sempre foi mais que um silêncio, uma indiferença mortal? È como se para as pessoas cis* uma declaração de amor, um "eu te amo/desejo" fosse tão profundo como um "batatinha quando nasce". É como se pessoas que estão fora da ordem fossem automaticamente desamáveis. Recentemente meu terapeuta disse diante das minha lamentações que eu deveria tentar ser mais amável, respondi-lhe que serei amável com quem o permitir, se e quando permitirem.

X monstro é sempre imoral. Afinal, em nossa sociedade ainda vitoriana, o estado do corpo representa o estado da alma e vice-versa. Toda tentativa que ele fizer para se aproximar do ser amado será sempre motivo de chacota, para ele e para a pessoa. Qualquer ato de bondade que fizer será visto como segundas intenções e se ele ousar chegar à menos de 500 metros será automaticamente acusado de estupro. Aliás, para alguma pessoas o simples fato dx monstrx existir e respirar já x torna umx estupradorx, umx agressorx em potencial. Nem falarei sobre a questão da loucura (x monstrx é sempre insano) porque no caso de pessoas trans*, o  acusador ainda conta com o CID-10 e o DSM-IV, manuais de psiquiatria e de saúde reconhecidos mundialmente pela OMS, para comprovar.

Queiram ou não a beleza padronizada dos normais é o passaporte por excelência à humanidade. Quantas vezes nos surpreendemos, ou píor, acabamos por reproduzir e naturalizar falas como "mas era umx moçx tão linda" em nosso dia-a-dia, especialmente quando uma pessoa querida e socialmente aceitável comete algum crime ou morre ou se suicida? O fato é que em nossa sociedade ainda vitoriana a cisnormatividade entendida como "o belo" trás privilégios ilimitados, torna a pessoa que se submete a ela, se  inclui na normas "imorrível" e  indefectível.

Final feliz, guetificação ou segregação?
A violência do mocinho é sempre justa, saudável, legítima, afinal ele representa a maioria, a norma, as virtudes desejáveis. A violência dx monstrx é sempre egoísta, torpe, maligna, pois representa apenas a própria solidão, o próprio desespero. Por isso, a violência física, a invisibilidade, a negação de qualquer forma de poder e de empoderamento, os risos e os chistes, toda execração publica dx monstrx é aceitável. O mocinho sempre terá o direito sagrado de matar x monstrx, livrar a sociedade de ver e conviver com tal decadência e receberá todos os aplausos por isso. X monstrx mata apenas pessoas inocentes, gente "estúpida o suficiente" para se aproximar delx. Monstrxs sempre acabam sozinhxs no fim da estória, seu "grand finale" é sempre a morte violenta ou o esquecimento. Afinal, mocinhos se casam com mocinhas, monstrxs se unem com monstrxs, e assim, cria-se e legitima-se uma divisão em duas castas de pessoas: as desejáveis e as invisíveis/execráveis. Afinal, quem namoraria umx monstrx?

A mesma sociedade ainda vitoriana que é tão lenta em amar é rápida em julgar e condenar. Ouse x monstrx se aproximar da mocinha, mesmo que a mocinha no fundo também seja uma ogra, como no desenho do Shrek (aliás, mais um ótimo exemplo), experimente subverter a ordem natural das coisas, ser amado e ter seu par, sua tampa da panela, e abrirá um portal extra-dimensional sugando todo o universo conhecido para o Reino de Hades. E tente usar de violência para ser visto ou percebido, tente usar de "backlash" para dizer que está vivo e que também tem sentimentos e a mesma sociedade ainda vitoriana acenderá os archotes e sairá pelas ruas com toda meiquice que lhe é peculiar, entoando o clássico "MATEM O MONSTRO!".

Por fim, deixo minha interpretação sobre o motivo do sucesso desse tipo de literatura. O monstro nada mais representa que nossos terrores internos, nossos medos da solidão, da não-aceitação. Representa o estado de perplexidade da sociedade industrial mecanizada, que em pleno século XIX tinha dominado um saber científíco muito avançado ao ponto de transmutar a natureza, mas os seres humanos não haviam aprendido à conviver entre si e viviam os horrores das guerras (talvez o maior exemplo disso na literatura seja a critura invertada por Mary Shelley,no clássico Frankenstein). Essa critica cabe como uma luva aos dias atuais e à questão trans* ou dos gêneros não binários, pós-gêneros, etc... Temos acesso á uma tecnologia nunca vista, capaz de alterar nossos corpos de uma forma nunca antes vista para que possamos ter acesso a um nível de satisfação nunca antes imaginado. Temos hormonioterapias, cirurgias avançadas e em constante desenvolvimento que permitem a redesignação sexo-genital, implantes de silicone, técnicas específicas de fonoaudiologia... mas a mentalidade das pessoas parece nunca alcançar o ritmo vertiginoso da tecnologia. 


Hoje no Brasil os mocinhos estão matando fisicamente umx monstrx por dia, ceifam essas vidas de forma desumana e com requintes de crueldade, simplesmente por não conseguirem conviver com suas anormalidades. Dizimam pessoas que já não têm o acesso aos espaços sociais, aos serviços públicos elementares (educação, segurança, saúde, lazer....), pois a sociedade tem medo de se infectar com suas monstruosidades. Tirando de vez das ruas criaturas que são socialmente rejeitadas, seres-humanos (embora o neguem) que não vivem plenamente suas relações sociais e afetivas, mesmo a sociedade ainda vitoriana "permitindo" suas paupérrimas existências. 

Eis a verdade: a sociedade dos normais não nos ama, não nos respeita, apenas nos tolera, desde que não saiamos mostrando nossa feiúra, nossa anormalidade pelas ruas, que não mexamos com seus sacrossantos privilégios hétero/cisnormativos. E de preferência que não saiamos das jaulas e das correntes.

NOTA: Neste artigo fiz questão de usar linguagem neutra (usando o polêmico "x") para me referir ao gênero/sexo do monstro, para assim demonstrar algo que sempre me chama a atenção neste tipo de literatura: por mais animalesco e distorcido que seja o corpo do monstro, ele sempre estará inserido no modelo dicotômico que dissocia o masculino do feminino e sempre será heterossexual. O maior exemplo disto talvez seja o alienígena da série "Alien", que, mesmo não tendo nenhum traço físico de humanidade, ainda é divido entre machos e fêmeas, com direito à naturalização de construtos socioculturais como "instinto materno".  Seria a necessidade de demonstrar que mesmo os monstros são obrigados a seguir determinadas normas de gênero? E por algum motivo que prefiro deixar em suspenso, aberto para debate, na maioria esmagadora das vezes, o  monstro pertence ao sexo/gênero masculino. 

Sobre a questão da maternidade na ficção científica, faço questão de deixar o belo artigo de minha querida Profª Ana Paula Vosne Martins (UFPR):                                       https://mega.co.nz/#!7RNFATLC!PLcvWHxfxM3W1_ICqzXXKkAO4BRhDqLLvn4FMfVa6xE


Clipe de hoje (o mais óbvio possível):

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Queer ou barbárie ( ou "Queer para um dicionário marxista")

domingo, 19 de janeiro de 2014.
Ave Butler! Hail Derrida!

“Não basta conhecer e interpretar o mundo, é preciso transformá-lo”  (Karl Marx)

Este panfleto tem por objetivo desmitificar e responder a algumas objeções acerca dessa tão falada e polêmica teoria, além de defender a importância, ou melhor, a urgência de adotá-lo em nossas lutas cotidianas, feministas e LGBT. Ele é direcionado aqueles que nunca tiveram o acesso ou oportunidade de discuti-lo e foi escrito com a linguagem mais acessível possível. Boa leitura.



O que é Teoria Queer?
Apesar de todo um discurso no sentido de torná-la inacessível, a Teoria Queer é muito fácil de ser compreendida. “Queer” é uma palavra de origem inglesa que pode ter varias traduções em português: “feio”, “esquisito”, “subversivo”, “torto”, “inumano”, “retorcido”, “fora-dos-padrões ”, “monstro”, “abjeto”, “pária”... e no idioma original é o contrário de “straight” (“correto”, “certinho”, “higienizado”, “estabelecido”, “normal”...) que tem sido muito mal traduzido em nossa língua por “heterossexual”, mas no original significa muito mais que isso.
Teoria Queer é mais que uma teorização, uma tática de luta para estas populações minoritárias, baseada no empoderamento e na autoaceitação do caráter subversivo desses grupos. Não é um movimento “burguês” (na prática é exatamente o contrário). Não é um tipo de militância. É um discurso surgido no interior do feminismo, a partir dos anos 90, por autoras como Teresa de Lauretis, que perceberam que os grande modelos de interpretar a realidade acabavam por deixar toda essa gente de fora. Apenas como exemplo, as primeiras autoras a falar na questão das pessoas trans*(1) na nossa sociedade, dar voz à elas, foram exatamente as teóricas “queer”.

ALGUMAS OBJEÇÕES RESPONDIDAS DE FORMA HONESTA:

Objeção I: A Teoria Queer é inacessível ao grande público e não sai da academia:
Correto. A TQ é inacessível ao grande publico, assim como as grandes autoras feministas e as discussões dos clássicos da política. Em geral o bojo de todas as discussões teóricas de qualquer organização fica retido na academia. Não se faz movimento popular sem a academia, alíás a maioria dos movimentos populares surge na academia. E é por isso que precisamos da figura do “intelectual orgânico”, que faz o trabalho de levar esses debates para as bases. Frisamos que a TQ não se propõe a ser um modo explicativo universal e sim, uma critica a esses modelos e às várias formas de exclusão advindas destes.

Objeção II : A TQ não fala sobre a realidade brasileira:
Ótimo argumento. A TQ originariamente diz pouca coisa sobre nossa realidade, pois a maioria de suas autoras, como Judith Butler e Beatriz Preciado não estão inseridas em nossa realidade local. A grande maioria de suas obras não se dirige diretamente à realidade brasileira contemporânea, assim como os grandes clássicos do socialismo científico (só para citar um exemplo) eram dirigidos aos intelectuais e operários do século 19: homens, viris, brancos, cristãos, “straights” e europeus. Todo modelo teórico é igualmente importante para organizar nossas idéias sobre o mundo que nos rodeia, desde que sejam sempre atualizados e adaptados ao nosso contexto. Atualmente, temos algumas autoras trabalhando com esta importante adaptação da TQ em nosso país, como Berenice Bento, Guacira Lopes Louro, Leandro Colling, Richard Miskolci...

Objeção III: A TQ inviabiliza a auto-organização e as lutas específicas:
Este é o mais triste de todos os argumentos. É duplamente perverso, porque ao mesmo tempo em que exclui e nega a existência política dessas populações, nega a possibilidade de fazer reflexões mais aprofundadas, repensar conceitos para organizar de uma forma mais eficiente as militâncias específicas. Basta lembrar que até o fim dos anos 80 e começo dos 90, a questão da homossexualidade e das mulheres eram ainda vistas por várias organizações de esquerda como “um problema secundário, que atrapalha a luta por um Bem Maior”. Muitas destas organizações infelizmente continuam pensando desta maneira até hoje.

Conclusão:
A TQ não é um movimento organizado, não é um modelo explicativo, não é uma identidade (não existe uma pessoa “queer”). É uma teoria surgida no interior do movimento feminista e que não se propõe a romper com ele, é uma critica importante a antigos modelos de interpretar o mundo que, apesar de bem intencionados, acabam por deixar justamente os grupos mais marginalizados de lado. Ao mesmo tempo, demonstra que as teorias precisam se basear na realidade palpável, na observação da existência desses grupos estigmatizados, para melhor entender o mundo a nossa volta e a partir daí podermos transformá-lo. È impossível na atualidade brasileira fazer feminismo e militância LGBT sem dialogar com a Teoria Queer.


(1)trans*: termo criado por militantes transfeministas que designa pessoas transexuais, travestis e transgêneras, assim como o movimento organizado.

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Lulus, Tubbys e a Guerra contra o Sexo

terça-feira, 3 de dezembro de 2013.
Ave Butler! Hail Derrida!

"Na sua opinião quem vai ganhar as melhores notas? Quem vai ser execrado? O machão heteronormativo agressivo? O cara imberbe com cara de adolescente? A bichinha andrógina bissexual? O negro? O branco? Quem merece ficar na casa? Quem vai ficar até o final? Você escolhe. Você julga, Você dá as notas. Bem vindxs ao BBB da vida real!"

Olá, resolvi desfazer meu silêncio depois de tanto tempo para falar da polêmica do momento: a criação de dois aplicativos IDÊNTICOS que permitem aos usuários dar "notas" as performances sexuais de pessoas do "sexo oposto" e estão sendo corretamente acusados de promover opressão de gênero, expondo pessoas, sendo "machistas" e aquele "mimimi politicamente correto"(leia-se debate limitado e dogmático de sempre). Resolvi lançar este texto que já estava construindo à dias, mesmo depois de saber que o Tubby não passava de uma "trollagem", pegadinha interessantíssima feita justamente para demonstrar o sexismo dentro de certos discursos que se dizem feministas. E percebi que deveria só agora publicá-lo, justamente por ir na contramão dos discursos hegemônicos sobre o tema.

Bem, antes de continuar e que me xinguem, vou colocar minha posição política sobre os tais programas: são jogos sexuais e portanto violêntas ferramentas de controle social que não foram inventadas agora, pelo contrário existem desde o primórdio da Humanidade, em forma de "sussurros laterais", no interior dos claustros, saunas, conversas entre matronas, bar das amigas, enfim, qualquer espaço de interação social. O que me deixou bastante triste foram argumentos por parte de feministas mais tradicionais, ao meu ver bem falaciosos, e que buscam vitimizar as (cis)mulheres em detrimento dos (cis)homens- reafirmando e reproduzindo sem perceber uma lógica sexista, dicotômica e essencialista.

Argumento desnecessário, pois o simples fato de alguém ter sua vida sexual e afetiva devassada, destruida por essa brincadeira macabra e vir a cometer suicido transforma em assassinos, genocidas quaisquer pessoas que insistam em compactuar com isto. Seria totalmente a favor do fechamento desses aplicativos caso o problema fosse apenas virtual. Pelo contrário, Lulus e Tubbys fazem e sempre fizeram parte de nosso cotidiano, não trazem absolutamente nada de novo, apenas tornaram esta brincadeira sinistra (e que convenhamos, todo mundo faz uma vez ou outra) algo muito maior, mais ágil, ao alcance de nossos dedos e em total anonimato.É a democratização do espírito de porco.

Um brinde à hipocrisia.

Um dos argumentos usados por algumas feministas que mais me chamou a atenção foi a de que o Lulu seria uma resposta ao machismo, por que os homens sempre tiveram o direito de fazer este tipo de brincadeira "pênis-ciosa" com as pobres mulheres oprimidas. Isso é mito, provavelmente isso tudo começou logo que o ser humano inventou a técnica de se comunicar oralmente.

Para a pesquisadora da educação Helena Altmann , os jogos infantis no ambiente escolar se dividem  em masculinos e femininos, sendo que os jogos dos meninos se baseiam na violência, na força fisica, na esperteza, enquanto os das meninas são baseadas na comunização (em especial dos desejos), na sociabilização,nos sentimentos,no "namorico". Ao contrário do que chiam tanto xs feministas segundo-ondistas de plantão, as meninas são tradicionalmente introduzidas aos jogos eróticos mais cedo que os rapazes- embora sempre "ás escondidas".Em nossa sociedade, mulheres brincam de Lulu desde a pré-escola, enquanto os homens estão ainda mal e porcamente aprendendo a chutar bola. A quem discordar, sugiro uma  visita à escola mais próxima como experiência.

Mas não se trata aqui de dar corda a Guerra dos Sexos, de apontar infantilmente quem começou, como tenho lido em vários sites, mas de demonstrar o que ambos os aplicativos têm em comum: TUDO- são absolutamente idênticos(!). Idênticos em sua proposta, idênticos em sua forma, idênticos na grosseria, identicos como ferramenta de controle social...

Algumas pessoas têm comentado que um dos programas, o para homens, é mais "machista" e "misógino". Isso é uma ilusão. Quem diz que hashtags como "#nerd" e "#peganinguem" são menos ofensivas que "#AnalVoluntario" e "#vadiagulosa" (são só exemplos, não participo desses aplicativos) é porque desconhece a forma como a educação sexual impõe padrões de performance diferentes entre os sexos, desconhece como a quebra destes padrões tem sido trágica e levado inclusive a mortes e agressões intensas de "ambos os lados" . Se esquece, por exemplo, que na nossa sociedade a expressão "vagabundO" tem um conotação bem diferente que "vagabundA".

Dizer que uma garota "dá pra todo mundo" é o mesmo que dizer que o cara "não come ninguém", justamente por que a sociedade incute nas nossas mentes idéias antagônicas sobre a sexualidade e que são reforçadas através da linguagem. As hashtags da versão feminina não são menos apelativas, apenas parecem mais sutis. Até porque a avaliação das pessoas pelos tais serviços não se dá apenas pelas hashtags, mas por uma nota, de "0.0 á 10.0", que definiria a performance da vitima. Numa sociedade tão materialista e cartesiana como a nossa, números exprimem muito mais que palavras. Não vale botar um "#pracasar" com um "2.0", ou um "#barangona" com "10.0" pra disfarsar o golpe baixo.

 Além disto, o ato de tentar definir pelo outro a opressão que o outro sofre, é uma atitude colonizadora, de um autoritarismo absurdo. É óbvio que a linguagem dos aplicativos é diferenciada, pois os seus públicos também são diferentes.  De fato, o macho-alfa é incentivado desde cedo a ser o "comedor", o "garanhão", enquanto a mulher ideal é treinada desde criança para seduzir e usar seu corpo como arma desde que o faça de forma recatada, pois o prazer feminino é permitido desde que dentro do limite do "papai não pode saber-embora ele saiba".

É por isso que a exposição publica sexual de adolescentes do sexo feminino é execrada enquanto a dos machinhos é comemorada. A culpa é sim, dos irresponsáveis que as publica, mas antes de tudo, da sociedade que categoriza os gêneros, cria padrões de conduta diferenciados, aquilo que pode ou não ser feito, pode ou não ser dito.  É por isso que "cantadas" em locais publicos  são vistas como assédio pelas mulheres e prova de status sexual pelos homens (acredite, muitos homens e mulheres adoram "pedreragem", mas não admitem). E é por isso que não se fala no tabu do estupro masculino- pois se um homem adulto der queixa na delegacia, no minino será motivo de gozação, vão perguntar se pelo menos a agressora era "gostosa". Em suma, o problema não é do "machismo", conceito-estanque desenvolvido e repetido ad nausean por aqueles que não querem se aprofundar no debate do tabu "anti-classista e pós-moderno" das relações de gênero e poder. O problema tem outro nome que precisa ser gritado e ser ouvido: "REPRESSÃO SEXUAL"- em especial dos seres biosocioculturamente assinalados como "mulheres".

Algumas feministas meramente "acusaram" o Tubby de ser hipersexualizado. Uè, então ao invés das mulheres militarem pela liberação sexual,  para termos uma vida sexualmente ativa e feliz igual a dos homens (mais um mito sexista, a maioria dos homens sonham ter a vida sexual que grande parte das feministas pensam que eles têm) vamos criminalizar o sexo?!? A idéia é retroceder de propósito?!? Por que o sexo tem que ser algo tão sujo e imoral(izante)? Será que o problema não seria pelo contrário, uma pseudo-hiposexualização feminina? Porque em pleno século XXI o sexo continua sendo o Bicho de Sete Cabeças da sociedade ocidental?

"Sex is not the Enemy"!


E diferentemente do que têm vociferado certas vozes feministas, nessa Guerra dos Aplicativos, não há nenhuma "falsa-igualdade". Pelo contrário, há uma reprodução virulenta de uma falsa-dicotomia entre os sexos/gêneros, que exclui, delimita, violenta, educa as performances. Aliás uma falsa-dicotomia maniqueísta e (cis)sexista, pois como diz uma amiga virtual minha, a Jana Jones:" viado e trans tb são homens, assim como meninos afeminados que são fortemente esculhambados pela lógica machista, portanto dividir a opressão machista no esqueminha: homens oprimem x mulheres são oprimidas é coisa de quem não enxerga a complexidade de nossas relações sociais;"

Eu vou ainda mais além: Ambos os aplicativos são sexistas e absolutamente idênticos na invisibilização e assexualização dos grupos não-assinalados, os "anormais". Para grande parte das pessoas, a opressão não virá das notas e das hashtags "machistas", mas sim, da inexistência delas, problema aliás que não vi nenhuma feminista comentar. Alias, o cancelamento de um dos aplicativos nada mais é do que a velha estratégia de (cis)feministas de jogar pra debaixo do tapete, censurar qualquer debate mais aprofundado que lhes permita rever seus conceitos sobre as relações de gênero. Ou pior, o medo de ter sua identidade/papel, seu espacinho privilegiado na sociedade patriarcal contestado, desconstruido. Me parece mais uma estratégia de manutenção do discurso dicotõmico de gêneros e manutenção do status-quo heteronormativo do que defesa dos direitos das mulheres. Estão jogando fora mais uma vez uma oportunidade preciosa de avanço real nas consciências.

Ai está o auge da perversidade dessas brincadeiras: mais uma vez os espíritos mais contestadores é que foram realmente silenciados, violentados, alvejados no tiroteio maluco dos "normais".

Por isso tudo acho de uma suprema covardia esta campanha para retirar do ar ambos os aplicativos. Homens e mulheres cis*, assinalados e padronizados sempre brincaram de Lulu e Tubby, pois como disseram muito bem algumas colegas feministas, é próprio de quem está em posição de privilégio falar sobre a sexualidade do outro. Quem nunca pode participar fomos nós, os "outsiders". Queremos ter pela primeira vez a oportunidade de dar nota pra vocês, caros homens e mulheres normatizados que estão no topo da pirâmide. Não fujam. Não "arreguem". Saibam jogar. Não estraguem a nossa brincadeira. Ou pelo menos admitam que com a avanço da Internet e das tecnologias da informação a forma de pensar gênero, sexualidade, privilégios e privacidade mudaram. As regras são outras, os jogadores são outros..
"Pimenta no cu dos outros é refresco"
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Liberdade para xs Libertárixs (com Millõr e humor)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013.
Ave Butler! Hail Derrida!

Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, 
que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.
– Cecília Meirelles, in Romanceiro da Inconfidência.
O post subversivo de hoje é minha critica à idéia de "liberdade". Trata-se de um texto do fantástico e saudoso Millôr, que dialoga com criticas que faço a certas utopias. Mas bacana mesmo é a trilha sonora desse post. Assim que descobrir o que ando botando no meu chimarrão, volto para dar o informe rsv


"Mas afinal, o que é a liberdade?
Apesar de tudo o que já se disse e de tudo o que dissemos sobre a liberdade, muitos dos senhores ainda estão naturalmente convencidos que a liberdade não existe, que é uma figura mitológica criada pela pura imaginação do homem. Mas eu lhes garanto que a liberdade existe. Não só existe, como é feita de concreto e cobre e tem cem metros de altura. A liberdade foi doada aos americanos pelos franceses em 1866 porque naquela época os franceses 29estavam cheios de liberdades e os americanos não tinham nenhuma. Recebendo a liberdade dos franceses, os americanos a colocaram na ilha de Liberty Island, na entrada do porto de Nova York. Esta é a verdade indiscutível. Até agora a liberdade não penetrou no território americano. Quando Bernard Shaw esteve nos Estados Unidos foi convidado a visitar a liberdade, mas recusou-se afirmando que seu gosto pela ironia não ia tão longe. Aquelas coisas pontudas colocadas na cabeça da liberdade ninguém sabe o que sejam. Parecem previsão de defesa antiaérea. Coroa de louros certamente não é. Antigamente era costume coroar-se heróis e deuses com coroas de louros. Mas quando a liberdade foi doada aos Estados Unidos, nós os brasileiros já tínhamos desmoralizado o louro, usando-o para dar gosto no feijão.A confecção da monumental efígie custou à França trezentos mil dólares. Quando a liberdade chegou aos Estados Unidos, foi-lhe feito um pedestal que, sendo americano, custou muito mais do que o principal: quatrocentos e cinqüenta mil dólares. Assim, a liberdade põe em cheque a afirmativa de alguns amigos nossos, que dizem de boca cheia e frase importada, que o “Preço da Liberdade é a Eterna Vigilância”. Não é. Como acabamos de demonstrar, o preço da liberdade é de setecentos e cinqüenta mil dólares. Isso há quase um século atrás. Porque atualmente o Fundo Monetário Internacional calcula o preço da nossa liberdade em três portos e dezessete jazidas de minerais estratégicos".
E eu diria mais: Essa tal Liberdade já me custou um emprego decente, duas namoradas, vários diplomas quatro gatos e minha moral (brinks, essa nunca tive)

 *Texto completo do Millôr (vale varias lidas e relidas):  
http://www.encontrosdedramaturgia.com.br/wp-content/uploads/2010/10/Mill%C3%B4r-Fernandes-LIBERDADE-LIBERDADE.pdf

Clipe anti-libertário de hoje, com Alexandre Pires (SPC) e Fábio Junior:


ESSA TAL LIBERDADE 

(Letra sem tradução-sigam a bolinha)
O que é que eu vou fazer
Com essa tal liberdade
Se estou na solidão
Pensando em você
Eu nunca imaginei
Sentir tanta saudade
Meu coração não sabe
Como te esquecer

Eu andei errado, eu pisei na bola
Troquei quem mais amava por uma ilusão
Mas a gente aprende, a vida é uma escola
Não é assim que acaba uma grande paixão

Quero te abraçar, quero te beijar
Te desejo noite e dia
Quero me prender todo em você
Você é tudo o que eu queria 2X

O que que eu vou fazer
Com esse fim de tarde
Pra onde quer que eu olhe
Lembro de você
Não sei se fico aqui
Ou mudo de cidade
Sinceramente, amor,
Não sei o que fazer

Eu andei errado, eu pisei na bola
Achei que era melhor cantar outra canção
Mas a gente aprende, a vida é uma escola
Eu troco a liberdade pelo teu perdão

Quero te abraçar, quero te beijar
Te desejo noite e dia
Quero me prender todo em você
Você é tudo o que eu queria



À TEMPOS, antes que me batam: Tenho defendido à anos que as pessoas não precisam necessariamente se sentirem livres e sim, felizes. Até porque Liberdade imposta não é Liberdade. E essa tal Liberdade já foi e é desculpa esfarrapada para cometer crimes os mais perversos (com que bandeiras vocês acham que os ianques imperialistas invadem outros países, impõem ditaduras, chacinam a população?) Se a tua sensação de liberdade te faz bem, vai fundo(!). Quanto à mim, ainda sou suficientemente zé-coxinha para entender que ser feliz é abdicar de parte da Liberdade e que a Liberdade não pode ser um fim em si mesmo. E que Liberdade sem Responsabilidade é a mais pura alienação

 Agora, voltando à nossa programação (a)normal, um clássico dos Anos 90:



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